quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Flor da profecia

        No meu quinto ano de coral, participei de um ensaio especial, para o qual foram convocados apenas cantores adolescentes.
Na preleção inicial, maestro Oswaldo discorreu sobre uma de suas antigas descobertas. Essa aconteceu há vários anos, quando ele preparava o repertório para uma apresentação, cujo tema era Natal em Família.
“Gostaria de compartilhar com vocês um grande achado; há uma imagem recorrente e presente em canções de diversos países, a da Flor de Deus.
A canção alemã Es ist ein Ros entsprungen, por exemplo, sugere que desabrochou uma rosa, a Virgem Maria, da qual brotou outra flor, o Menino Deus.”
Interrompemos, então, o seu discurso, pedindo ao maestro que cantasse essa canção.
Ele a interpretou na versão em português:

Uma rosa desabrochou,
em uma planta, delicada.
Como a profecia nos anunciou,
da raiz de Jessé esta foi gerada.
No meio do frio inverno,
trouxe consigo outra florzinha,
que nasceu à noitinha.
A rosa, da qual fala Isaías,
é a pura Virgem Maria,
que, pelo designo eterno de Deus,
à luz um Filho deu
e, todavia, cândida virgem permaneceu.

        Maestro Oswaldo se comoveu ao cantá-la. E nós, com ele.
Depois de se recompor parcialmente da emoção, o suficiente para retomar a história, citou outras duas composições que também apresentavam a imagem da Flor de Deus: a canção portuguesa Natal de Elvas e a brasileira Calix Bento.
Os versos de Calix Bento, que se valem da imagem, são estes:

De Jessé nasceu a vara,
Da vara nasceu a flor.
E da flor nasceu Maria,
De Maria, o Salvador.”

Maestro Oswaldo, movido pela curiosidade, pesquisou sobre a origem comum, que serviu de inspiração para essas canções, e encontrou a resposta nas sagradas escrituras.
“A figura utilizada provém do seguinte versículo de Isaías: «E sairá uma vara do tronco de Jessé e uma flor brotará de sua raiz».”
        Ele ficou tão empolgado com a descoberta que a utilizou na composição dos versos para a versão de uma música de Toquinho:
eu quero ver
onde dorme o Menino
Fruto da mais bela Flor
que alguém já viu nascer.

        Ao ouvir esses versos, lembrei-me das palavras da Ave-Maria, com as quais dizemos « e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus».
Pensei, então:

“Realmente, Jesus é o fruto da flor profetizada e mais bela de todas: a Santíssima Virgem Maria”.

Em família

Um dos meus colegas de coral, sabendo que o maestro Oswaldo sempre tinha uma história na manga para nos contar, perguntou-lhe:
        “Maestro, alguma pessoa se sentiu tocada por essas músicas?”
        Ele respondeu rapidamente:
        “A Néia!”
        Ao dizer o nome da moça, ficou pensativo como quem se esforça por trazer à tona uma longínqua recordação.
        Depois de um silêncio prolongado, retomou a história falando de forma poética:
“Ao assistir ao espetáculo intitulado Natal em Família, Néia também colheu nas músicas a delicada Flor de Deus.
Ao formar, em pensamento, um buquê de flores, comprovou a presença marcante da Mãe de Jesus, não somente nas canções natalinas, mas sobretudo na sua própria vida. E seu coração voltou a desabrochar para Deus”.
Detive a narrativa dizendo:
“O senhor ainda não nos contou quem é Néia; e já está falando sobre como o coração dela se abriu a Deus!”
“Tem razão, Miro”, disse-me o maestro. “Deixe-me contar, desde o início, a história. A família Souza era natural de Resende, cidade do Estado do Rio de Janeiro. Os pais de Néia, Fernando e Isadora, sempre foram bons cristãos. Nunca perdiam nem se atrasavam para a missa dominical, embora demorassem cerca de duas horas para preparar todos os filhos antes de irem à celebração. Néia e seus sete irmãos foram consagrados, ainda quando bebês, à Nossa Senhora, por ser padroeira da cidade a Imaculada Conceição.
        Assumindo a responsabilidade de filha mais velha do casal, Néia ajudava os pais a cuidar dos irmãos. Era tão querida por eles que, quando Néia chegava à casa depois da escola, os pequenos corriam ao encontro para abraçá-la. As crianças tinham essa mesma reação somente para com os seus pais.
Para os irmãos mais crescidos, Néia era a grande amiga; sempre estava disposta a ouvir confidências e fazer-lhes companhia nos planos propostos.

Todos na família desfrutavam da sua atenção, alegria e carinho.

Orações por Néia

        Dona Isadora dizia muitas vezes: «uma família que reza unida permanece unida». À noite, acompanhada do esposo, rezava com as crianças o Pai-Nosso, a Ave-Maria, o Santo Anjo e fazia a oração familiar diante da Imagem da Imaculada, que ficava na sala de estar. Depois, ia aos quartos das meninas e dos meninos pequenos para colocá-los na cama. Dava um beijo na fronte de cada um e desejava-lhes boa noite. 
        No ano de 1983, a oração pela família era invariavelmente esta:
        «Nossa Senhora, cuida da nossa família. Peça a Deus para Néia passar no vestibular, para Ana melhorar as notas em matemática, para o Lipe lutar bem no próximo campeonato de judô e para que ninguém se machuque no torneio. Agradecemos por ter intercedido junto a Deus na melhora da saúde da Maria – que não teve mais crises de bronquite – e também na adaptação dos gêmeos Fábio e Lucas ao novo colégio. Necessitamos ainda de uma boa babá para a Laurinha e para o Dudu. Mãezinha, todas essas intenções e agradecimentos depositamos em suas mãos».
        Em maio desse mesmo ano, Dona Isadora acrescentou ao final das preces pela família uma nova súplica:
«Proteja com seu manto o Rodrigo».
Na primeira vez que incluiu esse pedido na oração pela família, as crianças começaram a saltar de alegria e a se abraçar; pensaram todos que se tratava do anúncio da vinda de mais um irmãozinho. Dona Isadora riu-se da situação, mas imediatamente esclareceu que a família ainda não cresceria mais e revelou que Rodrigo era o namoradinho da Néia.
Ao receberem a notícia, as crianças se entreolharam e, depois de um breve silêncio, saíram correndo para o quarto da Néia, driblando os pais que tentavam detê-las. Gritavam em uníssono:
«A Néia tá namorando... A Néia tá namorando... »
Lipe, porém, emburrado por ciúmes, recusou-se a ir ao aposento da irmã.
Néia, encabulada, escondeu-se debaixo das cobertas da cama, enquanto os irmãos pequenos saltavam em cima dela. Seu Fernando saiu em defesa da filha mais velha, recolhendo os pequeninos e colocando-os um a um no respectivo leito. A agitação foi tanta naquela noite que todos demoraram a adormecer.
No dormitório das filhas mais velhas, todas as noites Néia e Ana recitavam individualmente as tradicionais orações e preces pela família.
A oração de Ana, no entanto, começou a se alongar a partir do segundo semestre de 1983; intensificara as súplicas por Néia. Preocupava-se com algumas mudanças no comportamento da irmã mais velha. Néia não se emocionava mais e, tampouco, sorria diante da recepção calorosa dos irmãos pequenos; adotava inclusive uma atitude fria, quase protocolar ao chegar a casa. Já não lhe confidenciava como fora o seu dia: as aulas no cursinho, as conversas com os colegas de turma ou o seu namoro com Rodrigo. Provavelmente, descuidava da oração familiar, pois ao se deitar caía no sono logo em seguida.
Seus pais argumentavam que a mudança de comportamento da Néia se devia a vários fatores. O semblante menos sorridente de Néia seria devido ao estresse no ano do vestibular. A redução das suas confidências com os irmãos decorria de compartilhá-las também, há meses, com o namorado. Mas Ana intuía que faltava algum elemento chave para a compreensão de tal transformação.
Em janeiro de 1984, Néia recebeu a excelente notícia da sua aprovação em todos os vestibulares prestados. Toda a família comemorou e depois agradeceu muito à Nossa Senhora pela mediação no ingresso de Néia à universidade.
Mas, infelizmente, a alegria durou poucos dias, pois Néia anunciou que pretendia se mudar para o Rio de Janeiro a fim de cursar a faculdade de engenharia na Universidade Federal. Em favor dessa ideia, expôs as seguintes vantagens: formar-se em uma das faculdades mais bem conceituadas do Brasil; fazer companhia a sua tia Neuza, que morava sozinha no Rio; e não ficar longe do Rodrigo, que ingressara na mesma universidade.
Seus pais insistiram para ela permanecer em casa. Argumentaram que os custos de morar no Rio, mesmo que sua tia não lhe cobrasse pela hospedagem, seriam mais elevados. Alegaram a favor da sua permanência em Resende, o fato da faculdade na cidade gozar de prestígio e também ser gratuita. Mas o fator mais importante era o de morar com seus pais e irmãos por mais cinco anos. Mas Néia, inflexível e até mesmo áspera com os pais, asseverou que iria estudar de qualquer forma no Rio, porque já tinha 18 anos e que, se preciso, arrumaria algum emprego lá para se sustentar.
Ana, ao presenciar uma das discussões de Néia com seus pais, habituais naqueles dias, ficou muito assustada e rezou naquela noite.
«Meu Deus, a situação aqui em casa está piorando ainda mais. Néia está tão diferente... Ela tem se distanciado de todos nós e está destratando nossos pais! Não considera a falta que sentiremos dela em casa, caso vá morar no Rio. Além disso, nossos pais precisam de nós, os filhos mais velhos, para ajudar-lhes nos serviços da casa e no cuidado dos pequenos. Peço, encarecidamente, que a Néia volte a ser aquela irmã que todo mundo gostaria de ter: carinhosa, prestativa e atenta aos demais».
Apesar das súplicas e orações da família, Néia ingressou na UFRJ e foi morar com a tia Neuza. O ano de 1984, por isso, teve essa nódoa de tristeza para a família Souza. As crianças chegavam a chorar de saudade em alguns finais de tarde e, sempre quando Néia passava o final de semana no Rio.

Quando cobrada pelos pais sobre o aumento da permanência no Rio, Néia alegava estudar melhor lá para as provas difíceis da faculdade, por haver maior silêncio no apartamento da tia do que em casa.

Espetáculos natalinos

Ao final do ano, Néia comunicou aos parentes uma notícia que estremeceu ainda mais a relação familiar. Não passaria o próximo Natal em casa, pois pretendia viajar com a tia Neuza pelo sul do Brasil.
Apesar do desapontamento, Seu Fernando e dona Isadora não impediram Néia de acompanhar a tia. Mas seus pais seguramente não a deixariam fazer tal viagem se soubessem que o Rodrigo e o namorado da tia as acompanhariam. Néia, mal aconselhada pela tia, ocultou essa informação aos pais.
Ana, abrindo uma exceção, tentou aconselhar a irmã e convencê-la a passar o Natal em família.  Néia não lhe deu ouvidos e, ainda mais, chegou a acusá-la de estar com inveja da excursão planejada.
Ana, muito entristecida, suplicou veementemente a Deus que tocasse o coração da irmã.
«Meu Deus, se me permite, peço como presente de Natal que a Néia desista dessa viagem. Seria muito triste para nós não estarmos reunidos, todos da família, na noite de Natal, por um capricho de Néia.
Deus, que há tempo ouvia com gosto a oração da família Souza e se compadecia, principalmente, com as súplicas insistentes de Ana, decidiu intervir. Sabendo que Néia participara do coral de Música Sacra da escola durante todo o Ensino Médio, convocou o Anjo dos cantos gregorianos para atuar no caso.
O Anjo dos cantos gregorianos, antes de agir, relembrou parte da aula magistral ministrada nos primórdios do mundo, na qual Deus expunha o pecado capital predominante em Néia”.
Maestro Oswaldo no momento não se deteve na narração da aula magistral e prosseguiu com a história de Néia.
“A viagem de Néia ao Sul do Brasil começou por Curitiba às vésperas do Natal de 1984.
Néia quis assistir com o Rodrigo à última apresentação do nosso espetáculo Natal em família. Nesta noite se separam do outro casal, pois tia Neuza e namorado preferiram ir ao cinema.
Como dizia anteriormente, Néia comoveu-se ao ouvir as canções que tratavam Nossa Senhora como a Flor profetizada, pois herdara da mãe uma intensa devoção à Santíssima Virgem Maria. Dona Isadora lhe ensinara, desde pequenina, a invocá-la como Mãezinha do Céu.
Ao ouvir Desabrochou uma rosa ­­– magistralmente interpretada pelo nosso coral infantil –, ela desejou ser uma Flor de Deus delicada e pura como Maria. Naquela hora, o coração dela se abriu, e o anjo dos cantos gregorianos, já preparado, acertou-lhe pela abertura uma seta benfazeja.
Ao voltar para o hotel, evitou o namorado justificando mal disposição e dor de cabeça.
Néia dormiu muito mal naquela noite; passou a madrugada quase toda chorando, refletindo sobre o desgosto que dava à  família e, principalmente, a Deus. Pensou:
«Longe de ser uma flor para os que tanto me amam, não sou mais do que espinhos».
No dia seguinte, na parte da tarde, Néia foi passear no shopping com Rodrigo. Para sua surpresa, em uma livraria ocorria o lançamento de um CD de cantos gregorianos interpretados por Juliano Ravanello. O casal decidiu assistir ao evento.
As músicas eram belíssimas e, na voz suave do cantor Juliano, conduziam os ouvintes à oração. Néia se emocionou muito ao ouvir várias canções que falavam da pureza de Maria.
O canto que mais lhe tocou o coração foi o Laudes de Nossa Senhora, no qual Maria é comparada a uma videira que fornece o vinho que alegra o coração.
O Maestro Oswaldo cantou-nos a versão em português e depois explicou-nos o efeito dos seus versos em Néia:

Ó Virgem que o pecado não deformou
A imagem de glória do seu criador
És bela e pura ó vinha de Israel
De ti veio o vinho que alegra o coração.
Qual terra que o divino Agricultor
Cuidou para em ti a semente deitar
Geraste o fruto do Amor que o Pai tem por nós
Teu Filho Jesus, o Maná que o céu nos deu.


        Néia, refletindo sobre a música, recordou-se da perpétua virgindade de Maria. A mãe de Deus, que concebera no seu seio por obra do Espírito Santo, permanecera virgem antes, durante e depois do parto do Menino Jesus.

Conselhos de mãe

Ao pensar na virgindade de Maria, lembrou-se, então, dos conselhos que Dona Isadora, prudentemente, lhe havia dado quando começara a namorar:
«Minha filha, alegra-me muito que esteja namorando, pois só assim poderá encontrar um bom marido.  O namoro bem vivido também é ocasião de um grande amadurecimento.  Saiba que o segredo do namoro é procurar a cada dia conquistar o rapaz com atenção e carinho renovados. Procure também corrigir os defeitos que molestem seu namorado. Cultive o amor sincero, verdadeiro e generoso para que esse amor possa se tornar exclusivo e para sempre. Todas as mulheres desejam amar e ser amadas desta forma. Somente o surgimento de um amor assim deverá levar você ao casamento com seu namorado.
Minha filha, não se esqueça de que entre namorados só deve haver carinho, isto é, beijinhos e abraços moderados. Outras carícias são próprias do casamento. Nunca se esqueça de que entregar a intimidade a outra pessoa é a manifestação de um amor tão grande que se transformou em entrega de vida para formar família. Além disso, para nós cristãos, esse amor é chamado de Deus para conduzir ao céu o marido e os filhos, que nasçam da união matrimonial.
Como há muita confusão nesses temas hoje em dia, acho muito importante que você deixe claro ao Rodrigo, desde o princípio, que tipo de namoro pretende levar».
Néia também se recordou que no mesmo dia em que dera tais conselhos, Dona Isadora lhe presenteara uma estampa da Imaculada Conceição com a oração Bendita seja a tua pureza impressa no verso.
Néia lamentou-se muito de não ter dado ouvidos à mãe e, levianamente, não haver se mantido casta para o casamento. Tomou a resolução de voltar a seguir os conselhos maternos.
Renovou, naquele momento, a sua consagração à Virgem Maria, recitando interiormente e de memória a oração:

Bendita seja a tua pureza
Eternamente o seja
Pois todo um Deus se recreia
Em tão graciosa beleza
E a ti celestial princesa
Virgem Sagrada Maria
Dou-te neste dia
Alma, vida e coração
Olha-me com compaixão
Não me deixes mãe minha.


Ao terminar a prece, encontrava-se profundamente convertida; confirmara no coração a decisão de viver de acordo com os princípios nos quais acreditava.

Conversa com Rodrigo

Virando-se para o Rodrigo, disse-lhe:
«Amor, vamos a um lugar mais silencioso, pois gostaria de conversar um pouco».
Em uma mesa, na praça de alimentação do shopping, afastados das demais pessoas, dialogaram:
«Rodrigo, você sabe o quanto te amo e como admiro suas qualidades, principalmente, a atenção e o carinho com que me trata. Mas, há algo que está me incomodando muito no nosso relacionamento. Você se lembra do que lhe falei, ao início do namoro, sobre as carícias que deveria haver entre nós?»
Rodrigo, intuindo por quais caminhos iria a conversa, declarou:
«Claro que me lembro, mas não me diga que você vai querer voltar atrás no nosso relacionamento. Se nosso namoro vai melhor agora com essas manifestações sinceras de amor! Afinal, nós nos amamos, não é verdade?»
Néia contestou:
«Claro que te amo muito! Mas ainda não há entre nós um amor de entrega total de vida. Penso que esse amor é necessário para o tipo de relacionamento que levamos; estamos nos precipitando.»
Rodrigo, pressionando-a, disse:
«Se você quiser mudar as regras do jogo a essa altura do campeonato, acho melhor terminarmos o namoro imediatamente.»
Néia, aflita e assustada com as afirmações de Rodrigo, expôs:
«Rodrigo, não é isso que eu desejo. Apenas não me sinto bem namorando dessa forma. Não quero mais viver dividida interiormente, contrariando os meus princípios. Penso que, se você me ama de verdade, pelo menos pode respeitar essa minha decisão. Não pretendo mais abdicar dos meus valores. Cultivo esses princípios desde pequena e desejo voltar a segui-los. Quero que sempre façam parte da minha personalidade. Eu quero viver e ser assim.
Rodrigo disse:
«Desculpe-me, mas eu preciso de um tempo para pensar. Já adianto que tudo isso me parece um despropósito.»
Néia, dando-lhe um beijinho, disse:
«Então, dou-lhe o tempo que quiser para pensar melhor.»
Rodrigo perguntou:
«Mas como será o resto da nossa viagem?»
«Rodrigo, penso interromper a viagem, pois seria muito difícil viver como pretendo dividindo um quarto com você. Mas, se quiser, pode continuar conhecendo o sul do Brasil, pois os hotéis já estão todos pagos. Eu voltarei a casa, para passar o Natal em família.»
Rodrigo, como no fundo do coração tinha bons sentimentos, levou Néia ao hotel para apanhar os seus pertences e, depois, à rodoviária para pegar um ônibus de volta para Resende. Mas, visivelmente contrariado, esquivou-se quando ela quis dar-lhe um beijo de despedida, antes de embarcar no ônibus.

Néia, embora tenha sofrido muito com a separação, voltou a sentir paz profunda na sua alma. Passou a rezar insistentemente à Nossa Senhora para que o Rodrigo concordasse em levar um namoro cristão e voltasse a procurá-la.

De volta à casa

No dia 23 de dezembro, quando o seu ônibus se avizinhava a Resende, Néia telefonou para o pai pedindo-lhe que fosse buscá-la na rodoviária. Dona Isadora, avisada do regresso de Néia por seu marido, convocou todos os filhos para esperarem-na atrás da porta de entrada da casa, para fazerem uma surpresa para a irmã mais velha, logo que ela chegasse.
Ao abrir a porta, todos os irmãos pequenos se jogaram sobre Néia abraçando e beijando-a. Ana, que ficara um pouco mais atrás, pôde observar a fisionomia de felicidade estampada no rosto da Néia, ao ser acolhida com festa pelos irmãos. Ana gritou para Lipe, que ainda estava no quarto dele: A Néia voltou!
Naquele dia, Néia se uniu à mãe e aos irmãos nos preparativos da Casa, principalmente dos salgados e docinhos, para a ceia de Natal.
Na manhã do dia 24 de dezembro, seu Fernando convocou os filhos mais velhos para irem à Igreja para se confessarem em preparação do Natal.
A confissão de Néia foi prolongada e muito contrita.
O padre, amigo da família, acolheu-a com muita misericórdia e deu-lhe vários conselhos:
«Minha filha, considere que Nosso Senhor se emocionava não apenas com a pureza de vida do apóstolo João, como também com o arrependimento do apóstolo Pedro. João entregou plenamente seu jovem coração a Deus e sempre lhe foi fiel, permanecendo inclusive firme aos pés da Cruz. Pedro negou três vezes conhecer a Jesus, mas compungido chorou profusamente; seu arrependimento e conversão foram tão profundos que, depois, permaneceu fiel até a morte na cruz pelo seu Mestre.
Néia, também tenha presente que, no tema da sexualidade, não existem pessoas fortes e fracas; mas sim pessoas prudentes e imprudentes. Todos somos fracos, se não colocamos os meios para não cair em tentação.
Permita-me, portanto, dar-lhe alguns conselhos.
Se você e o Rodrigo reatarem o namoro, evitem ficar sozinhos no apartamento do Rodrigo e tampouco namorem no apartamento da sua tia, por saberem que ela é liberal. Cuidem especialmente dos momentos de encontros e despedidas, sobretudo no carro do Rodrigo.
Por último, não se esqueça de que Nossa Senhora a vê a todo o momento e atue como uma boa filha de Maria».
Néia agradeceu ao padre os conselhos e, após receber a absolvição dos pecados, sentiu-se invadida por paz e alegria imensas.
Na ceia de Natal, a alegria estava estampada no rosto de todos os integrantes da família Souza. Néia, voltando o olhar para a imagem da Imaculada, que presidia a sala de estar, disse-lhe interiormente: «Obrigado, mãezinha!».
Mesmo que tenham ido deitar-se tarde, Néia puxou conversa com Ana sobre os últimos acontecimentos na família.
Ana, por sua vez, perguntou-lhe sobre o Rodrigo. Néia confidenciou-lhe que estava dando um tempo para o Rodrigo pensar se aceitaria ou não levar um namoro cristão. Pediu à Ana para rezar à Virgem Maria suplicando que a resposta do Rodrigo fosse afirmativa, pois gostava muito dele.
Antes da virada do ano, inesperadamente, na casa dos Souza, chegou uma encomenda do Rodrigo para Néia: uma linda flor branca com um cartão anexo.
Ansiosa, Néia abriu o cartão. No lado esquerdo do cartão, Rodrigo havia copiado vários versos de uma famosa música popular brasileira.
Se você quer ser minha namorada
Ai que linda namorada
Você poderia ser
Se quiser ser somente minha
Exatamente essa coisinha
Essa coisa toda minha
Que ninguém mais pode ser
Você tem que me fazer
Um juramento
De só ter um pensamento
Ser só minha até morrer
E também de não perder esse jeitinho
De falar devagarinho
Essas histórias de você
E de repente me fazer muito carinho...
E se mais do que minha namorada
Você quer ser minha amada
Minha amada, mas amada pra valer
Aquela amada pelo amor predestinada
Sem a qual a vida é nada
Sem a qual se quer morrer
Você tem que vir comigo
Em meu caminho...
Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos
E os seus braços o meu ninho
No silêncio de depois
E você tem de ser a estrela derradeira
Minha amiga e companheira
No infinito de nós dois

Néia ficou emocionada e lisonjeada ao ler essa declaração de amor. Enquanto lia o cartão ficou um pouco confusa, visto que posicionamento do Rodrigo com relação ao namoro não era tão claro.
Também o compositor da música não era exemplo a ser seguido na virtude da castidade, fato que provavelmente Rodrigo não sabia.
A dúvida sobre as intenções de Rodrigo se dissipou plenamente quando leu a mensagem pessoal escrita no lado direito do cartão:

Néia,
eu te amo e sempre te amarei como desejas ser amada,
do teu
Rodrigo

Depois de ler o cartão, Néia pegou a flor que Rodrigo lhe enviara e, em agradecimento, depositou-a aos pés da imagem da Imaculada Conceição.
Dizia à Virgem Maria:
«Uma flor para a Flor de Deus».
Foi quando pareceu ouvir no seu coração as seguintes palavras ternas de Maria:
«Obrigada, minha Flor»”.



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